"Quero flores e sorrisos agora": Advogado com câncer terminal reúne amigos e familiares para "velório em vida" em Campo Grande
m uma celebração marcada por lágrimas, música e abraços, o profissional escolheu reescrever o rito de despedida para ouvir as homenagens das pessoas que ama enquanto ainda está presente.
01/06/2026 - 08:25:00 | 4 minutos de leitura
O silêncio tradicional e o clima de luto que costumam cercar os rituais de despedida deram lugar a abraços apertados, risadas nostálgicas e uma trilha sonora repleta de MPB e Rock clássico no último final de semana, na capital sul-mato-grossense. Diagnosticado com um câncer em estágio terminal e sem possibilidades de tratamento curativo, o advogado Roberto Silva (nome fictício adotado para preservar a privacidade da família), de 54 anos, decidiu subverter a lógica da morte e realizou o seu próprio "velório em vida".
O evento, que reuniu cerca de 80 pessoas entre familiares, amigos de infância e colegas de profissão em um espaço de eventos na cidade, foi planejado meticulosamente pelo próprio advogado ao longo do último mês.
"A maioria das pessoas passa a vida inteira sem dizer o quanto ama alguém, e guarda as palavras mais bonitas para quando o outro já não pode mais ouvir. Eu não queria isso. Eu queria ouvir o amor deles, e queria que eles me vissem sorrir de volta", explicou Roberto, visivelmente debilitado pela doença, mas com um brilho no olhar que emocionou a todos os presentes.
A escolha pelos Cuidados Paliativos e a autonomia
Roberto foi diagnosticado com um adenocarcinoma agressivo no aparelho digestivo há dois anos. Após passar por cirurgias, sessões intensas de quimioterapia e imunoterapia, a equipe médica informou, no início deste ano, que a doença havia progredido e não respondia mais às terapias convencionais. Foi então que ele ingressou oficialmente em cuidados paliativos exclusivos — uma abordagem médica focada no alívio do sofrimento e na garantia de qualidade de vida para pacientes com doenças graves e limitantes.
A decisão de fazer o velório antecipado foi recebida inicialmente com choque pela família, mas logo ganhou o apoio de todos. "No começo, a gente achou uma loucura, bateu um aperto no peito", conta a esposa, Mariana Silva. "Mas depois entendemos que essa era a forma dele manter o controle sobre a própria narrativa. Ele sempre foi um homem vibrante, o centro das atenções nas festas. Não combinava com ele uma despedida em que ele não pudesse participar."
O ambiente do "velório" foi decorado com fotos que relembravam a trajetória pessoal e profissional de Roberto, desde os tempos de faculdade de Direito até suas viagens e momentos em família. Em vez de coroas de flores tradicionais, os convidados foram incentivados a levar mudas de plantas e flores coloridas, que depois seriam plantadas no jardim da casa do advogado.
Durante o evento, foi aberto um "microfone livre". Um a um, amigos e parentes subiram ao palco para contar histórias engraçadas, relembrar casos jurídicos marcantes vencidos por Roberto e expressar gratidão.
O psicólogo especialista em luto, Dr. Carlos Eduardo Medeiros, explica que rituais como esse, embora incomuns, têm um valor terapêutico imenso.
"O velório em vida permite o que chamamos de 'despedida explícita'. Ele ressignifica o luto antecipatório, permitindo que tanto quem está partindo quanto quem fica possam resolver pendências emocionais, pedir perdão e validar a importância daquela vida em tempo real."
O legado da dignidade
Ao final da celebração, Roberto fez seu próprio discurso, agradecendo o privilégio de ter vivido a vida que teve e reforçando a importância do direito à dignidade na fase final da vida. Conhecido no meio jurídico de Campo Grande por sua atuação ética e combativa, ele transformou seu momento mais vulnerável em uma última lição de coragem.
O evento terminou com um brinde coletivo. Para os presentes, ficou a sensação de que a morte, embora inevitável e dolorosa, perdeu parte de seu peso diante de uma celebração tão honesta da vida. Roberto retornou para sua residência, onde segue recebendo suporte da equipe de paliação em regime de home care, cercado pelo afeto que escolheu testemunhar.
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