Julgamento de Bolsonaro pode redefinir forças da direita e da esquerda nas eleições de 2026
Em Foco
09/09/2025 - 12:29:00 | 4 minutos de leitura

O Supremo Tribunal Federal (STF) encerra na próxima sexta-feira (12) o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus por tentativa de golpe de Estado. Especialistas avaliam que a decisão será um divisor de águas no cenário político e poderá ditar os rumos das eleições de 2026. A expectativa majoritária é de condenação, o que tende a ampliar a polarização entre direita e esquerda. Bolsonaro e os demais acusados respondem na Ação Penal 2668 por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe, dano qualificado por violência contra patrimônio público e deterioração de patrimônio tombado. Segundo o cientista político Paulo Ramirez, professor da ESPM, uma condenação unânime reduziria o espaço para reações mais radicais da direita. No entanto, uma eventual decisão dividida pode inflar discursos extremistas. "Essa divergência pode favorecer conflitos entre partidos, setores da sociedade e também dentro da imprensa, entre veículos mais hegemônicos e os que rejeitam qualquer punição a Bolsonaro. Além disso, certamente terá reflexos no processo eleitoral do próximo ano, como já se viu no passado com o caso do próprio Lula”, afirmou o cientista político. Por outro lado, segundo Ramirez, o aumento da radicalização entre esquerda e direita pode aumentar riscos da autonomia do Supremo Tribunal de Federal (STF), mas que não devem ser reforçados por partidos de centro-direita como PSD e MDB Já para a professora de Ciências Políticas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Mayra Goulart, uma eventual condenação de Bolsonaro pode reforçar a narrativa de vítima do ex-presidente, além de atingir esferas mais moderadas. "Uma narrativa que associa a figura de Alexandre de Moraes a uma dimensão mais personalista e menos imparcial pode, de fato, atingir bolhas mais moderadas e amplas do que a extrema-direita bolsonarista, que adere mais facilmente ao discurso da vitimização”, afirmou a professora. No caso de uma eventual condenação de Bolsonaro, há expectativa de que o presidente norte-americano Donald Trump retalie o Brasil com novas sanções econômicas e sociais. Trump já declarou apoio ao ex-presidente e aplicou tarifa de 50% sobre importações brasileiras. Uma das justificativas apontadas pelo republicano para as tarifas foi a chamada "caça às bruxas” contra Bolsonaro. O presidente americano também revogou vistos de Alexandre de Moraes e de mais sete ministros do STF: Luis Roberto Barroso, o presidente da Corte, Edson Fachin, vice-presidente, Dias Toffoli, Cristiano Zanin, Flavio Dino, Cármen Lúcia e Gilmar Mendes. Além dos ministros, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, também teve o visto suspenso. Para a professora Mayra Goulart, uma eventual movimentação de Trump em defesa de Bolsonaro, embora evidencie a força da extrema-direita no plano global, pode acabar beneficiando candidatos do campo da esquerda. O professor Paulo Ramirez ressalta que, apesar de retaliações de Trump poderem fortalecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atrasos nas negociações podem ser percebidos pela opinião pública como incapacidade do governo, representando um risco para um presidente que busca a reeleição em 2026. Para as eleições de 2026, o ex-presidente Jair Bolsonaro não indicou oficialmente nenhum herdeiro político. Segundo os especialistas, a demora na nomeação prejudica a campanha eleitoral da direita e em caso de uma possível condenação limita o poder de Bolsonaro como cabo eleitoral. Para o professor da ESPM, a direita enfrenta dificuldades em criar um herdeiro político que consiga fazer uma transferência direta de votos do Bolsonaro. Além disso, como o ex-presidente permanece em prisão domiciliar e com uso proibido de redes sociais, uma articulação política para a campanha de 2026 fica limitada. "O PT se preparou para a condenação de Lula, deixando vídeos previamente gravados com a imagem dele. Foi uma situação muito curiosa, porque, mesmo preso, um ex-presidente conseguiu participar da eleição. Hoje, não vejo o mesmo tipo de organização em relação ao Bolsonaro, como o PT fez ao prever o pior naquele ano de 2018”, afirmou o cientista político. Para a professora de Ciências Políticas da UFRJ, um outro desafio para a direita nas eleições de 2026 é conseguir uma figura política que consiga atingir camadas mais populares como Bolsonaro.
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