O oceano que acendeu: Satélites e velejadores confirmam "mar leitoso" do tamanho da Islândia ao sul de Java

Fenômeno bioluminescente raríssimo fez mais de 100 mil km² de oceano brilharem continuamente por 40 noites no Oceano Índico.

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03/06/2026 - 10:46:00 | 3 minutos de leitura

O oceano que acendeu: Satélites e velejadores confirmam


Imagine navegar em uma escuridão completa e, de repente, o oceano ao seu redor começar a emitir um brilho branco, constante e uniforme, estendendo-se até a linha do horizonte. Foi exatamente isso que a tripulação do iate Ganesha vivenciou ao sul de Java. O que eles não sabiam naquela noite era que faziam parte de um dos registros mais massivos e documentados de um dos maiores mistérios da oceanografia: o mar leitoso (ou milky sea).

O brilho não era apenas uma mancha passageira. Dados de satélite analisados posteriormente confirmaram que a área brilhante cobria mais de 100.000 quilômetros quadrados — uma extensão territorial equivalente ao tamanho da Islândia — e permaneceu ativa de forma contínua por mais de 40 noites.


O que é o Mar Leitoso?

Diferente da bioluminescência comum — aquela que vemos em praias onde a água brilha com um azul cintilante quando é agitada pelas ondas ou por barcos —, o mar leitoso se comporta de forma totalmente oposta.

  • Brilho Contínuo: Ele não precisa de estímulo mecânico (movimento) para brilhar. A água simplesmente emite uma luz constante.

  • Cor Distinta: Sua tonalidade é descrita como um branco-esverdeado ou "cor de leite", brilhando com intensidade suficiente para que se possa ler um livro no convés de um barco à noite.

  • Escala Gigantesca: Enquanto a bioluminescência comum é local, o mar leitoso engole o horizonte por quilômetros a fio.

A Ciência por Trás do Fenômeno

Por séculos, o mar leitoso foi considerado apenas folclore de marinheiros (sendo inclusive citado no clássico Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne). A ciência moderna, no entanto, descobriu que o fenômeno é real e causado por uma relação simbiótica em escala colossal.

O brilho é gerado por populações massivas de bactérias bioluminescentes (principalmente a espécie Vibrio harveyi). Diferente dos dinoflagelados (que brilham ao susto), essas bactérias se colonizam em microalgas que flutuam na superfície. Quando a concentração dessas bactérias atinge um limiar crítico (fenômeno conhecido como quorum sensing), elas ativam simultaneamente seus genes de luminescência, criando o efeito de um tapete brilhante e contínuo.


A Importância do Flagrante

A confirmação desse evento cruzando dados do sensor de satélite Day/Night Band (da NOAA/NASA) com os relatos visuais e fotográficos da tripulação do veleiro Ganesha foi um marco. Como o mar leitoso ocorre quase sempre em áreas remotas e de forma imprevisível, coletar amostras ou fotografias de alta qualidade in loco é extremamente difícil.


Os cientistas agora utilizam esses dados combinados para entender quais condições oceanográficas exatas — como temperatura da água, correntes e nutrientes — disparam esse brilho com o objetivo de prever quando e onde o oceano irá "acender" novamente.


Foto: Reprodução/ CPG