O Próximo Trilho da Itália: Após Rodovias, Grupo Europeu Mira Bilhões em Ferrovias no Brasil

Com o avanço do acordo Mercosul-União Europeia, o capital italiano — que já lidera as concessões rodoviárias brasileiras — prepara uma ofensiva bilionária para assumir projetos estratégicos na malha ferroviária do país.

Economia

26/05/2026 - 04:17:00 | 3 minutos de leitura

O Próximo Trilho da Itália: Após Rodovias, Grupo Europeu Mira Bilhões em Ferrovias no Brasil


O mapa da infraestrutura brasileira está passando por uma sutil, mas profunda, reconfiguração geopolítica. Depois de consolidar sua liderança nas estradas do país, os investidores italianos agora apontam seus radares para os trilhos. O movimento coincide com um momento crucial de maturidade dos marcos regulatórios no Brasil e o reaquecimento das conversas diplomáticas para a consolidação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.


O Antecedente Rodoviário como Cartão de Visitas

Para entender o apetite italiano pelas ferrovias, é preciso olhar para o que já aconteceu nas rodovias. A EcoRodovias, uma das gigantes do setor no Brasil — responsável por complexos viários vitais como o Sistema Anchieta-Imigrantes em São Paulo e a EcoRioMinas —, é controlada pelo Grupo ASTM, o segundo maior operador de concessões rodoviárias do mundo, com sede na Itália.

Essa experiência prévia serviu para decodificar o "risco Brasil". Os italianos aprenderam a navegar pela burocracia, pelas nuances das licitações e pelos modelos de modelagem financeira locais, transformando o país em uma plataforma segura para a alocação de capital de longo prazo.


O Próximo Alvo: A Malha Ferroviária

O setor ferroviário brasileiro é historicamente um gargalo, mas hoje representa a maior fronteira de investimentos em logística da América Latina. O interesse europeu se concentra em duas frentes principais:

  1. Ferrovias de Carga (Agronegócio e Mineração): Projetos que conectam o Centro-Oeste produtor aos portos das regiões Norte e Sudeste. Empresas italianas de engenharia pesada e operadoras de infraestrutura miram as renovações antecipadas de contratos e novos leilões de trechos intocados.

  2. Mobilidade Urbana e Trens de Passageiros: Projetos de trens intercidades (como o TIC São Paulo-Campinas) e a expansão de metrôs despertam o interesse de companhias como a Ferrovie dello Stato Italiane (estatal ferroviária italiana), que possui expertise global em alta velocidade e transporte de média distância.


O Catalisador: Acordo Mercosul-União Europeia

O avanço, mesmo que gradual, das costuras políticas entre o Mercosul e a União Europeia funciona como um selo de garantia jurídica para esses investimentos. O acordo prevê facilidades que vão muito além da redução de tarifas de importação:

  • Segurança Jurídica: Salvaguardas internacionais que protegem os investimentos de mudanças bruscas nas regras do jogo local.

  • Compras Públicas: Abertura para que empresas europeias disputem licitações governamentais em condições de igualdade com consórcios locais.

  • Transferência Tecnológica: Facilidade na importação de maquinário pesado, sistemas de sinalização ferroviária de última geração e material rodante (trens e vagões) que a Itália domina amplamente.

O cenário que se desenha para os próximos anos é de forte concorrência. Se antes o capital chinês liderava o apetite por grandes obras no Brasil, a Europa — capitaneada pela Itália — mostra que não vai deixar o mercado ferroviário ser dominado sem uma disputa bilionária.


Foto: Foto feita por IA/Divulgação CPG