Tarifaço: mercado teme que medidas e pacote se tornem permanentes

Em Foco

15/08/2025 - 12:34:00 | 4 minutos de leitura

Tarifaço: mercado teme que medidas e pacote se tornem permanentes

As medidas anunciadas pelo governo federal para socorrer os setores da economia brasileira mais afetados pelo tarifaço comercial imposto pelos Estados Unidos sobre grande parte dos produtos nacionais exportados para os norte-americanos foram importantes e devem aliviar o impacto das taxas, mas também trazem preocupação. A avaliação é de economistas e analistas do mercado consultados pela reportagem do Metrópoles após o anúncio do pacote pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), na última quarta-feira, no Palácio do Planalto. Outro ponto de atenção destacado pelos economistas é o potencial impacto do pacote no já delicado quadro fiscal brasileiro, em um momento em que o governo tenta reduzir gastos para equilibrar as contas públicas. “Algo que demandará atenção é o impacto fiscal dessas medidas e se, de fato, serão transitórias, uma vez que a situação fiscal já é frágil. Além disso, a criação de uma linha de crédito subsidiada em meio ao aperto monetário realizado pelo Copom [Comitê de Política Monetária do Banco Central] pode minar os esforços da política monetária”, afirma André Valério, economista sênior do Banco Inter. “O montante anunciado não é grande o suficiente para gerar distorções significativas. No entanto, o risco é a perpetuação das medidas, que poderiam se tornar mais uma forma de política industrial, criando mais distorções e, potencialmente, impactando a condução da política monetária via incerteza fiscal e crédito subsidiado”, alerta Valério. O economista Enrico Gazola, sócio fundador da Nero Consultoria, tem entendimento semelhante. Segundo ele, “o desenho de parte das medidas preocupa”. “A vinculação rígida do crédito à manutenção integral de empregos ignora a necessidade de ajustes e realocações que, em alguns casos, são inevitáveis e até desejáveis para preservar a competitividade. Compras públicas para absorver excedentes, se mal conduzidas, tendem a gerar distorções de preços, desperdício e uso político dos recursos”, observa. “Além disso, não há clareza suficiente sobre como será precificado o risco assumido pelo Estado, nem sobre o prazo real de saída dessas intervenções – e experiências passadas mostram que medidas temporárias no Brasil, frequentemente, viram políticas permanentes”, prossegue Gazola. O economista alerta, ainda, para os eventuais custos fiscais. “Esses recursos não brotam do nada. Representam um risco adicional às já pressionadas contas públicas e podem comprometer ainda mais a trajetória da dívida se não forem estritamente temporários e bem focalizados”, afirma. “Responsabilidade fiscal não é um detalhe burocrático, mas condição para manter juros sustentáveis, câmbio estável e confiança de investidores, especialmente em um momento em que o país precisa de previsibilidade para crescer.” Gazola avalia, por fim, que o governo deveria ter agido mais rápido na frente diplomática com os EUA “e se mostrado mais aberto ao diálogo com parceiros estratégicos”, de modo que pudesse ter “mitigado parte dos impactos e até evitado a escalada que resultou nesse tarifaço”. “O saldo é que o plano tem méritos claros no curto prazo, mas o risco de transformar um choque externo em mais um ciclo de dependência estatal está presente. O sucesso não será medido pelo valor anunciado, mas pela capacidade de focalizar, ser temporário e transparente, preservando os incentivos para que empresas busquem eficiência e novos mercados, em vez de se acomodarem no amparo público”, completa. “No cenário doméstico, a atenção se volta para o pacote de apoio a exportadores, ainda cercado de dúvidas sobre seu formato e efeitos fiscais. A percepção de fragilidade nas contas públicas mantém o clima de cautela, deixando o dólar sensível tanto às decisões do Fed [Federal Reserve, o Banco Central dos EUA] quanto à confiança na política econômica brasileira”, avalia.